domingo, 3 de janeiro de 2016

LÚCIO MORIGI - MAS, PARIS NÃO ESTÁ AQUI











MAS, PARIS NÃO ESTÁ AQUI

LÚCIO MORIGI


A rosa que agora vejo,
Vale mais que os perfumes de Paris. 
A boca que agora beijo
Vale mais que as bocas que sempre quis.

O cravo que agora cheiro,
Vale mais que os perfumes de Paris.
A fruta que ora saboreio,
Vale mais do que os gourmets ont dit.
O sorriso que me sorri,
Vale mais que o sorriso que o Louvre esconde.
A alegria junto de ti,
Vale mais que todas as alegrias du monde.
A brisa que agora sinto,
Vale mais que Thais de Massenet.
Se não estou no agora eu minto.
Pra que ficar me iludindo, pra quê?
O espelho que ora me reflete,
Me revela mais de mil detalhes.
Com sua beleza não compete
O esplendor do Château de Versailles.
Mais que a tarde que agora curto,
Catherine Deneuve não vale pro seu fã,
A não ser que ela estivesse junto.
Então, a tarde encontraria a manhã.
O pássaro que agora ouço,
Vale mais que o mundo de Cousteau.
Seu canto mesmo que rouco,
Vale mais que o que Edith Piaf cantou.
Vale mais o segundo do meu agora,
Que quarenta séculos que nos contemplam.
De que vale Paris se ela está lá fora?
A ilusão na matéria não se sustenta.
A folha que agora vejo caindo,
Vale mais que a Champs Elisées no outono.
O marrom da folha se exibindo
Diz que o flamboyant não é mais seu dono.
A alameda que agora atravesso,
Vale mais que todo Cartier Latin.
De que vale Renoir e seu universo,
Se um mar nos separa nesta manhã?
Vale mais este gelado suco
Que uma Moet Chandom lá na France.
O que escreveu e pensou Victor Hugo,
No momento não está ao meu alcance.
Se a Notre Dame falasse,
Falaria da oração pra ti.
Mais vale a prece que ora nasce
Que as milhões de preces que ouvi.
Se o Arco do Triunfo falasse,
Diria que Napoléon a passé.
Que não importa se fracassaste,
Le jour de gloire est arrivé.
Da laranja eu quero um gomo,
Do limão, quero um pedaço.
O abraço do mundo todo,
Não vale o teu abraço.
O cravo amou a rosa
Debaixo de uma sacada.
O cravo saiu querido
E a rosa saiu amada.
Tua voz no meu ouvido
É mais que La Vie en Rose cantada.
Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar.
Mais vale uma brincadeirinha
Que dois Moulins Rouges no ar.
O amor que tu me deste
Era vidro e se quebrou.
O vestido que agora vestes
Vale mais que os que Chanel usou.
Batatinha quando nasce,
Espalha a rama pelo chão.
Se a torre Eiffel falasse,
Falaria da ilusão,
E que tudo o que viu na place,
Pra ti não vale um tostão.
Terezinha de Jesus,
De uma queda foi ao chão.
Mais vale a tua luz
Que as que Paris tem à mão.
Joguei um cravo n’água,
De pesado foi ao fundo.
Mais vale a luz de tu’alma
Que todas as luzes do mundo.


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